Nikita

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Natação e Competição

Em recente pesquisa da DATAFOLHA E REVISTA VEJA, na cidade de São Paulo, sobre o esporte mais procurado por crianças de idade escolar, divulgada pela CBDA, a Natação se classificou em 1o Lugar e, sobre o esporte mais praticado no Brasil, ela assume o 2o lugar, abaixo apenas, do futebol.

Sabemos que o número de nadadores que pratica natação regularmente visando outros objetivos, além da competição, é muito maior que os oficialmente inscritos em federações.

Se analisarmos somente a base da natação competitiva, formada por crianças na faixa-etária dos 7-8 aos 13-14, anos chegaríamos a um número que, provavelmente, nos colocaria entre os maiores países praticantes desta modalidade.
A falta de organização, planejamento, coordenação entre os diversos órgãos diretivos, e o amadorismo, acrescido por um somatório de equívocos, oriundos de dirigentes e também da nossa parte – os técnicos – tem contribuído para que, à essa imensa base não corresponda um maior número de nadadores adultos com nível nacional e internacional.

Todos os anos assistimos jovens talentosos abandonarem inicialmente o pódio, depois as finais, o ranking e finalmente, a prática da natação. Pior, a maioria destes jovens saem traumatizados, sentindo-se enganados e explorados na sua boa vontade e ingenuidade, características da idade.

Esquecendo que cabe iniciar e preparar a criança para que pratique uma modalidade esportiva não somente visando resultados imediatos e sim por toda sua vida, alguns colegas praticam verdadeiros absurdos que beiram a inconseqüência e mesmo a irresponsabilidade. São, em sua maioria, os “treineiros” (os “charlatões” do esporte. Torna-se importante diferenciá-los dos profissionais legalmente habilitados e compromissados com a ética profissional).

Todo profissional qualificado – o técnico de natação graduado em Educação Física ou pós-graduado em áreas afins – sabe que uma criança até 13 anos ainda está em fase de formação.

O que se está fazendo com estas crianças no Brasil não passa de um afogar/sufocar de talentos, os quais poderiam (se bem trabalhados) projetar a Natação Brasileira entre as melhores do mundo em curto prazo.

A natureza estabeleceu um ritmo para a formação e o desenvolvimento de uma criança, que não deve ser trabalhada como uma miniatura de um adulto. Antes de tudo, para um desenvolvimento harmônico corpo-mente, a criança precisa ter infância, ter tempo livre para brincar e não deve ser submetida ao stress físico ou psicológico. Existe limite para as suas capacidades.

Treinamentos inadequados podem prejudicar o crescimento e o desenvolvimento, diminuir a capacidade imunológica, levando a constantes gripes e outras patologias, além de uma diminuição da capacidade de atenção em outras atividades como, por exemplo, a escola.

Na prática, os nadadores, em sua maioria, quando param de nadar sentem um alívio, indescritível, das obrigações que lhe são impostas pelo dia-a-dia com treinos, cobranças por parte de todos os segmentos que os cercam, e principalmente, do “STRESS MENTAL” provocado pelas responsabilidades com competições. Estes fatores ajudam a reduzir o tempo de permanência do nadador num programa de alto nível.

Não diria que a competição seja prejudicial, mas, as formas de competição devem ser repensadas. Da maneira como vêm sendo feitas poderia apontar uma série de fatores negativos que, no conjunto, permite classificá-las como matadouro da nossa natação. O ser humano tende a repetir as experiências agradáveis e a evitar as desagradáveis (THONDIKE).

Após longos anos de debates sobre o assunto da natação mirim e petiz no país, a CBDA, através do seu conselho técnico – onde estão algumas das maiores autoridades do esporte no país – nos fez ver “uma luz no fim do túnel” com a reclassificação destas categorias e a delimitação das competições permitidas por idade, segundo a tabela abaixo:
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Idade                      Categoria                   Competições
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9 anos                    Mirim I                             Local

10 anos                     Mirim II                            Local

11 anos                     PetizI                         Local-Regional

12 anos                     Petiz II                      Local-Regional

13 anos                     Infantil                     Local-Regional-Nacional

14/15 anos              Juvenil              Local-Regional-Nacional-Internacional

16 a 18 anos           Junior               Local-Regional-Nacional-Internacional

19 acima                  Sênior              Local-Regional-Nacional-Internacional

Apesar de não ser o ideal, foi um grande passo no caminho da racionalização. Esta tabela, divulgada à época, não previa a “categoria pré-mirim” ou competições regionais (tipo Norte-Nordeste) para as duas primeiras categorias – Mirim I e II. Mas, muitas federações adotaram o “Pré-Mirim” e como estamos no país da impunidade e da falta de respeito às instituições, introduziram numa competição do calendário oficial da CBDA – o N/Ne de Petiz I e II – as categorias mirins.

O problema é que para a maioria das crianças nessa faixa-etária, participar de uma competição desse porte com alguma chance, teria que se submeter a um programa com quantidade e intensidade acima daquelas indicadas para uma estrutura física e mental ainda em fase de formação.

Inúmeros fisiologistas, neuro-fisiologistas, biólogos, e outros pesquisadores do mais alto nível, afirmam com base em suas pesquisas que a idade cronológica – soma de dias meses e anos de vida – e a idade biológica – resultado do processo de maturação biológica – apresentam, nesta faixa-etária, diferenças significativas que podem alcançar até 3 (três) anos de uma criança para outra. HOLLMANN, fisiologista alemão chega a afirmar que resultados técnicos de alto nível nesta faixa-etária seriam conseqüência de uma maturação precoce, ou seja, a criança se destaca porque é biológicamente mais velha do que seus concorrentes e, não somente, em conseqüência do treinamento que recebeu.

É que estes resultados somente aparecem com as chamadas séries de Tolerância ou Potência Anaeróbica – que são inadequadas antes da puberdade – e por sua vez, só serão assimiladas pelas crianças com maturação precoce e assim mesmo, com um alto nível de dispêndio, que seria a relação entre o trabalho aplicado e sua assimilação.

Segundo Bengt O. Eriksson, a concentração de glicogênio nos músculos esqueléticos das crianças é menor que nos adultos. Este fator limitaria os trabalhos físicos a períodos em torno de uma hora de duração. Trabalhos anaeróbios alactácidos (velocidade pura) ou lactácidos (resistência de velocidade), são semelhantes aos de força e potência e requerem níveis de testosterona ainda não atingidos nos mirins e petizes. Também, por outros indicadores fisiológicos e psicológicos, são contra-indicados para estas crianças.

O uso da idade biológica para formação de grupos visando a aprendizagem, o treinamento e, consequentemente as competições, tem em BERELSON E STEINER, fortes defensores que não só destacam uma diminuição relativa na eficiência da aprendizagem quando precoce, como também, a perda de um certo grau de eficácia se o processo for adiado para depois do que eles classificam como momento ideal para a aprendizagem, aperfeiçoamento ou treinamento.

Existem até propostas de se dividir as categorias da natação pela idade biológica, que seria facilmente identificada por médicos especialistas. Mas isto, apenas, reduziria a injustiça de disputas entre desiguais e os prejuízos decorrentes da forma como vêm sendo planejadas e executadas as competições para estas crianças.
Sabemos que existem entre essa imensa massa de nadadores mirins e petizes, crianças geneticamente bem dotadas para provas de fundo, medley de 400m e 200m em peito, costas e borboleta.

Ora, se também sabemos que estas crianças não devem ainda, receber treinamentos específicos para estas provas, por que eles têm que competir somente nas provas onde levam desvantagem?

Os pais mais observadores sabem o nível de stress mental a que as crianças são submetidas em competições deste porte. Ignorando ou muitas vezes, fingindo ignorar estes fatores, para satisfazer o seu ego, pais e dirigentes aliam-se aos “treineiros” e impõem programas “suicidas” para a carreira destas crianças e consequentemente, prejudiciais à natação futura.

Estilo é a forma individual de se nadar os quatro nados oficias. Sua formação decorre de uma série de fatores como flexibilidade, peso específico, proporcionalidade e percepção cinestésica nas ações propulsoras. Estes dependem primariamente de fatores genéticos e do processo de maturação e são aperfeiçoados através da repetição sistemática em baixa intensidade. A formação da técnica passa por uma adaptação gradual da coordenação dos centros nervosos e dos órgãos internos e requer a execução consciente do gesto, sendo um processo lento que ocorre paralelo à formação aeróbica – o desenvolvimento dos órgãos responsáveis pelo transporte de oxigênio aos músculos – viabilizando a perspectiva de progresso posterior.
O uso precoce da velocidade e da resistência de velocidade resulta numa formação técnica deficiente, automatizada precocemente de forma errada e adaptada as condições (morfológicas) do momento. Mais tarde, com a chegada da puberdade e na idade adulta ocorrem profundas modificações corporais que passam a requerer novas adaptações à “técnica”. Algumas destas modificações – por exemplo, a largura dos quadris, principalmente entre as mulheres – comprometem definitivamente a performance.

Então o ex-jovem campeão, sem entender o que se passa, não se conforma em ser alcançado e ultrapassado por adversários que costumava vencer com facilidade. E exatamente quando precisa do apoio daqueles que andavam com suas medalhas no peito, são abandonados e trocados por novas futuras vítimas, que por qualquer motivo entraram um pouco mais tarde no “circuito”. Quem experimentou a glória não se conforma com o anonimato. Este é o melancólico fim reservado para quase todos o medalhistas de “campeonatos” estaduais, regionais ou nacionais de mirins e petizes.
Por outro lado, os que apresentam uma maturação normal ou que treinam com técnicos conscientes e independentes, sentem-se desmotivadas em competir em condições de inferioridade e também abandonam, precocemente, a natação ou trocam de técnico/clube, atraídos ou aliciados pelos fabricantes de campeões mirins.
Uma consulta aos resultados destas competições nos últimos 20 anos derrubaria qualquer dúvida sobre estas duras afirmações.
Algumas poucas exceções não justificam o meio. Um programa coerente com os conhecimentos atuais sobre a formação e o desenvolvimento da criança e do adolescente pouparia milhares de horas de trabalho, de cruzeiros dos “paitrocinadores” enganados, de martírio e decepções para estas crianças e seus familiares e, multiplicaria em médio prazo o número dessas exceções.
As outras vítimas deste processo são os técnicos responsáveis que, ao se negarem a entrar no esquema, têm seus empregos ameaçados ou a competência posta em dúvida. Isto sem falar no número de talentos que acabam perdendo para os “treineiros”, comprometendo a formação de suas futuras equipes.
Estas são algumas das razões que fazem com que a maioria dos nossos poucos nadadores que chegaram com destaque à categoria sênior, iniciaram-se na natação de competição a partir dos 12-13 anos.

(Este artigo foi publicado pelo Prof. João Reinaldo na Universidade Federal de Pernambuco, distribuído em um Campeonato Norte-Nordeste Mirim-Petiz de 1992 que ocorreu na piscina do Clube Náutico Capibaribe)

 

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